Publicada em 01/11/2010 pelo Jornal da Ciência - SBPC. Fonte: O Globo, 31/10. Autor: Paula Dias.
"Não dá para ver nem com a ajuda do microscópio, mas seus reflexos já podem ser sentidos em diferentes setores, da indústria petroquímica à de cosméticos. Quando se trata de nanotecnologia - ou do controle da matéria na escala de um a cem nanômetros, o que corresponde a um bilionésimo do metro -, matérias-primas que antes eram usadas para um determinado fim podem ganhar funcionalidades inovadoras, capazes de revolucionar processos.
Não à toa, empresas de vários segmentos, principalmente de energia, têxtil, alimentício e informática, têm investido em pesquisas nesse campo do conhecimento, o que aumenta a procura por profissionais qualificados no mercado.
A prova de que os investimentos na área estão em ascensão é a publicação do primeiro relatório de atividades do setor, produzido pelo Fórum de Competitividade de Nanotecnologia da Secretaria de Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). Criado há um ano, o grupo - formado por representantes do governo, de universidades e empresas - tem como objetivo definir metas e ações para potencializar o desenvolvimento e a produção de insumos e serviços nanotecnológicos.
- A nanotecnologia vem se desenvolvendo no Brasil de seis anos para cá. E num ritmo rápido, se levarmos em conta o nosso nível de dependência tecnológica e o fato de os investimentos em pesquisa serem pontuais e com recursos públicos. Mas ainda é necessário promovê-la de forma integrada, empenhando esforços para superar entraves na formação de parcerias público-privadas e incentivando mudanças nos formatos de negociação de propriedade intelectual - diz João Lanari, diretor do Departamento de Tecnologias Inovadoras do Mdic.
Outro obstáculo que ronda o setor é a falta de mão de obra capacitada no mercado. Apesar de UFRJ e PUC-Rio terem lançado recentemente cursos de graduação na área - de nanotecnologia e engenharia em nanotecnologia, respectivamente - o esforço ainda não atende à demanda das empresas que, por lidarem com atividades de alta complexidade, buscam profissionais com mestrado ou doutorado. A saída acaba sendo contratar formados em física ou química, com especializações em engenharia de materiais, eletrônica ou mecânica.
É o caso da Tavex, multinacional de produtos têxteis, que desde 2002 investe na criação de nanopartículas com funcionalidades especiais. Aplicadas a pigmentos e tintas, esses compostos penetram nas fibras do tecido, fazendo com que sequem mais rápido ou apresentem uma resistência maior a manchas, por exemplo.
Para desenvolvê-los, a empresa optou pela contratação de físicos e químicos com cursos de especialização, já que não havia, no mercado, profissionais formados e pós-graduados em nanotecnologia.
- Quando montamos o nosso centro de pesquisa, encontramos muitos pesquisadores dispostos a aplicar, na empresa, os produtos que estavam desenvolvendo nas universidades. Mas não era bem isso que queríamos. Então, acabamos contratando pessoas sem formação específica e optamos por treiná-los internamente, participando de fóruns e debates sobre o setor. Deu certo - conta Rogério Segura, gerente de Desenvolvimento Têxtil.
Rumo ao desafio da industrialização
Segundo dados da última "Sondagem de inovação" da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, referente ao segundo trimestre do ano, só 11% das 1.650 organizações entrevistadas afirmaram estar desenvolvendo algum projeto de pesquisa em nanotecnologia. O resultado mostra que, no país, ainda são poucas as empresas que investem no setor, o que deve mudar em breve, aposta o economista Gilberto Lidânio, que coordenou a parte de nanotecnologia do estudo.
- A expectativa é que esse número aumente já no próximo trimestre. Nosso desenvolvimento ainda é embrionário, mas o potencial de crescimento é grande, tanto na produção de insumos quanto de artigos finais para o consumidor - diz.
Essa produção, no entanto, ainda está concentrada em organizações privadas que contam com grande volume de recursos, e empresas spin-off, formadas a partir de grupos de pesquisa de universidades.
É o caso da Nanogavea, ligada ao departamento de Engenharia de Materiais da PUC-Rio, que desde 2008 desenvolve nanomateriais derivados de dióxido de titânio (TiO2), componente essencial para a produção de pigmentos brancos para a indústria de tintas.
- Cerca de 60% dos pigmentos brancos usados no Brasil são importados da Europa. Há uma demanda enorme por esse material, principalmente agora, com a expansão da construção civil - explica o engenheiro de cristalografia Bojan Marinkovic, sócio-diretor da empresa.
Na graduação, são quatro candidatos para cada vaga
O negócio tem dado tão certo que, apenas seis meses após iniciar suas operações, a Nanogavea recebeu R$ 120 mil do edital Prime da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
E, em novembro do ano passado, ganhou mais R$ 200 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj) para a compra de equipamentos de grande porte.
- Atualmente somos capazes de produzir 40 gramas a cada dois ou três dias, mas a meta é chegar a 40 quilogramas no mesmo período. Para atender às necessidades da indústria, seria necessário investir cerca de R$ 3 milhões nos próximos dois ou três anos - calcula Marinkovic, que já está em negociação com o BNDES e investidores privados. - Se conseguirmos, vamos abrir vagas para engenheiros de nanotecnologia.
Talvez todas elas sejam ocupadas por recém-formados no curso de engenharia em nanotecnologia da própria universidade que, segundo o coordenador Marco Aurélio Pacheco, vai formar profissionais com uma visão interdisciplinar:
- O programa da PUC une conhecimentos de física, química, materiais e computação a métodos de apoio à tomada de decisão. Precisamos de pessoas capazes de pensar não só cientificamente, mas que estejam preparadas para o processo de industrialização.
Foi por perceber o potencial de contratação desse mercado que a UFRJ também criou um curso de graduação na área, que já vai para o segundo vestibular. Mas a procura ainda é pequena: há apenas quatro candidatos para cada uma das 40 vagas disponíveis.
- Muita gente ainda não sabe o que é nanotecnologia ou considera a área pouco promissora, sendo que há uma grande perspectiva de crescimento, especialmente nos segmentos químico e de biomateriais, para a área médica - diz o engenheiro Ericksson Almendra, diretor da Escola Politécnica, que organiza o curso em parceria com outros institutos da UFRJ."
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